Cariocas Espertos


A cena aconteceu num restaurante do centro do Rio de Janeiro, mas poderia ter acontecido no centro de São Paulo, Salvador, Belo Horizonte ou no Central Park.

Eu estava aguardando uma amiga para o almoço. O restaurante funcionava no mesmo prédio onde minha amiga trabalhava.

Enquanto esperava pedi uma Coca Zero, com gelo e limão, e sentei, como de costume, numa mesa de canto. Minha amiga teve um imprevisto e cancelou o almoço. Uma pena, pois eu tinha muita coisa para falar com ela. Tantas novidades sobre meu novo amor. Minha casa nova, meu novo livro e meus contos eróticos. E ela, certamente, teria novidades sobre a promoção que havia recebido um mês depois de ter sido contratada na empresa. E isso aconteceu por sua competente atuação profissional.

Fazer o quê?

Chamei o garçom e pedi meu prato preferido: salmão grelhado com pimentão vermelho.

Na mesa do lado, estavam sentados quatro homens que, pelo sotaque com excessos de x, eram todos cariocas. Um deles estava um pouco fora de forma, era advogado e tinha um cabelo cortado à escovinha. Pelo modo como o garçom o cumprimentou, parecia que era um antigo cliente da casa também, pois o garçom perguntou rapidamente como estava o andamento do processo com a ex e se ele teria que pagar pensão para os cincos filhos etc..

O escovinha respondeu que estava agilizando uma parada e que ele ficasse tranquilo. Mas que se preparasse. A grana que a ex do garçom estava pedindo era alta. Altíssima. Ao garçom cabisbaixo restou a cara decepcionada. Mas, enfim… Iria tentar recorrer. O outro homem do grupo era muito magro, parecia um faquir, e com cabelo sobrando na barba, na cabeça e nos braços. Um verdadeiro espetáculo capilar.

Os outros dois, um baixinho de olhos verdes, totalmente calvo, e um altão, com cara de 007, mas era um baita “indeciso capilar”. Tinha uns tufos de pelos nas orelhas, faltava metade dos pelos da calva, mas tinha um rabinho, engraçado em forma de trança, na nuca.

Quatro figuras.

Começaram pedindo caipirinhas. E para comer feijoada, lasanha, batata frita e um frango à passarinho.

Que banquete! Só de ver aquela comida toda engordei um quilo ou talvez mais…

Quando o garçom saiu com os pedidos, o do cabelo cortado à escovinha começou falando para o faquir… Ops! O indeciso capilar:

_ Cara, se liga! Sei que tu tá caidinho por aquela loira de peito grande que é a nova chefona na contabilidade. Mas não deixa ela perceber que tu tá afim dela, senão ela te ferra… Tem uma cara de esperta aquela mulher… Não fica mandando zap meloso todo dia, não, cara. Vai por mim, mulher não gosta de zap meloso. Mulher gosta mesmo é de descaso. Deixa que ela te aborde, ok? Fica online, não dá nem um alô e aguarda um sinal. Se ela te der 2 bom-dias no mesmo dia… Tá fácil; se forem três, tá mole, cai dentro, meu irmão. Mas toma cuidado. Nunca se sabe as intenções de uma mulher de peito como aquela.

_ É isso aí, cara. Já avisei pra ele ficar esperto… – arrematou o baixinho de olhos verdes, com um sorriso cumplice.

O altão, com cara de 007, concordou, balançando a cabeça sem falar nada.
Eu “arregalei” mais os ouvidos.

_ Mas com a outra (a patroa), fica esperto também, não dá bandeira que tu tá dando bola nas costas dela, senão ela “créu” nos teus bens e na tua conta bancária. Quem manda casar com comunhão universal de bens – continuou – e, falando em conta, o gerente do meu banco contou que tem uma jogada legal pra tu. Dá pra ele fazer duas contas e separar o dinheiro do carro que tu tá vendendo, e a patroa nem vai saber, se ela te pegar com a boca na botija. E aceita um conselho de graça, véio? Para com esta história de conjugar teus bens, “mané”… Quando tu se casa, tu conjuga tudo. Já que tu gosta de casar toda hora, casa quantas vezes achar legal. Tu gosta de um cabresto mesmo. Isso é problema teu! Agora, com relação à tua grana… Se liga! Contas separadas. Só sexo deve ser em conjunto. Tu e ela, sacou?

_ Tu e ela e, se ela deixar uma amiga também… Brincadeira! – desculpou-se rápido.

Eu fiquei mais vermelha que o pimentão do meu salmão, mas percebi pela cara do faquir que ele gostou da sugestão do escovinha.

_ Bem que eu gostaria de fazer umas paradas dessas com a loira peituda e a patroa, mas é muito difícil num casamento. Fazer todas essas conjugações, né, não?
Os outros concordaram, rindo.
O baixinho de olhos verdes falou para o de cabelo à escovinha:

_ Pow, maluco, sabe que tu me deu uma ideia? Vou convidar minha atual e a minha ex para um encontro a três. Eu não tenho nenhum bem mesmo, não posso conjugar nada… Quem sabe elas não conjugam um sexo bacana comigo?

_ Tenta, cara, o máximo que vai acontecer é a tua ex te dar um tapa na cara, pois ela é uma mulher direita e a tua atual vai te botar pra fora de casa a ponta pé. Melhor deixar quieto – sentenciou o escovinha.

Melhor mesmo. – falou o baixinho – Quero paz com aquelas duas lá.

Nesse momento, o garçom trouxe os pratos.
_ Vamos nessa? – perguntou o escovinha que, pelo jeito com que falava por todos, parecia o conselheiro oficial dos quatros.

Atacaram a comida, beberam as caipirinhas e marcaram outro almoço para a uma sexta-feira seguinte com direito, depois do expediente, a um chope na Lapa.

Não perceberam a minha presença na mesa do lado. Parecia que eu era uma mulher invisível.

Ufa!

Liguei para minha amiga e contei o ocorrido com os cariocas espertos. E ela riu muito ao telefone e pediu para eu descrever com que roupa o escovinha estava vestido. Relatei o traje: terno azul escuro, camisa azul claro, gravata cinza, sapato marrom. Foi então que tive uma surpresa.

O tal escovinha era um dos advogados da empresa onde minha amiga trabalhava. E pasmem! Minha amiga era uma loira escultural de pernas lindas, olhos verdes e seios fartos, e era a chefona do departamento de contabilidade e dos quatros cariocas espertos. Todos eles se reportavam a ela. Inclusive, o escovinha, que precisava recorrer mais amiúde, pois ela tomava conta das contas da empresa. E era osso duro de roer quando o assunto eram contas e reduziam as custas dos processos dos advogados pela metade.

Fiquei constrangida, mas, pelo bom humor, a risada ao telefone e o pedido que ela fez, ganhei o dia.

Ela pediu às gargalhadas:

_ Amiga, escreva uma crônica sobre uns caras que se julgam espertos, falam indiscrições à mesa de um restaurante e nem se ligam que uma escritora pode estar por perto e registrar tudo… E, ainda por cima, a escritora é amiga da loira peituda da contabilidade.

Feito!

Madalena Costa

Escritora palestrante e editora da revista Mulher Ativa. Iniciou a carreira como empresária no segmento de beleza ainda muito jovem, mas é na literatura, sua grande paixão, que expressa sentimentos que tocam sua alma profundamente. Publicou seu primeiro livro Contos & Batom em 2008, mais tarde adaptado para teatro no festival Internacional de Teatro de Curitiba em 2011, na categoria Novas Linguagens. No mesmo ano lançou a coletânea No divã com as esteticistas Vol. 1, que reuniu 70 contos, crônicas e depoimentos sobre a vida e carreira das mais renomadas esteticistas de vários estados do Brasil. Pela editora KBR, atuou como colunista, publicou o romance Passional e coordenou a coletânea No divã com as esteticistas Vol. 2 Seu grande desafio como editora da revista Mulher Ativa é partilhar conhecimentos e informações relevantes com uma linguagem moderna, arrojada e vanguardista totalmente voltada para o público feminino.

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