Como arrumar um homem rico e bom de cama

Em tempos de sites de relacionamento, que encomendam amores sob medida com a promessa de entrega a jato — ops!, não confundir com a operação Lava-Jato —, mas não prometem devolver o dinheiro investido caso o amor encontrado não seja satisfatório. Por insatisfatório, leia-se: homem duro de “marré deci”, ruim de cama, em um relacionamento enrolado com ex complicada, homem que ronca, deixa toalhas molhadas em cima da cama, espalha tênis sujos e meias fedidas pelos cantos, não levanta a tampa da privada e solta gases indiscretos sem constrangimentos — isso, em linguagem chique, ou no popular, como diz minha empregada, “homem que peida”. E diante da situação atual, em que pesquisas indicam que há um número elevado de mulheres solteiras e carentes à procura de um namorado, rolo ou qualquer homem pra chamar de seu, mesmo que ele incorpore todos os comportamentos tipicamente masculinos, eu pergunto: Será que ainda existe alguma mulher que também acredita em príncipe encantado, isento de todos os pecados acima, ou alguma que aposta no futuro de uma relação amorosa onde a prerrogativa de manter o homem fisgado é aquela ideia jurássica de nossas bisavós de que era possível prender um homem pela boca, digo, pela comida?

Muito embora as expectativas das mulheres modernas com relação a um ideal de homem pra chamar de seu tenha mudado bastante nos últimos tempos, acredito que inconscientemente elas ainda acreditam em certas histórias da carochinha, ideais românticos. Um deles é o típico conto da mulher boa de forno e fogão. Putz! Que coisa mais arcaica!

No final de semana convidei uma amiga para almoçar na minha casa, mas fui logo avisando que ela faria o almoço, e eu a sobremesa: um pote de sorvete de chocolate com uma calda de menta pronta, era só encher as taças de sobremesa e servir. Ela topou, e me confidenciou que tinha mil novidades para contar, entre elas que estava de caso novo com um homem que havia conhecido na internet, um cara boa pinta, segundo a foto de perfil que ela mandou pra mim no WhatsApp, e também um bom garfo. Quando ela chegou, carregada de sacolas de compras e algumas panelas, pensei que ela havia comprado uma cesta básica panelas novas para me dar de presente. Quem me conhece sabe que não tenho o menor talento pra dona de casa, e na minha geladeira tem apenas dois itens básicos, água e iogurte light; na dispensa tenho sempre um pacote de miojo e um de batata palha. Por isso fiquei surpresa e maravilhada com as compras da minha amiga e a perspectiva de um banquete.

Ela começou a preparar o almoço, e entre um gole de vinho branco gelado e outro, a conversa descambou para a pauta “homens”, que delícia. E ouvi estupefata a novidade: ela iria se casar com um verdadeiro príncipe, um homem rico, bonito, bom de cama e… pera lá… quase a mandei parar… Homem rico, bonito e bom de cama? Milagre!

— Qual o nome do santo? — perguntei.

— Santo Macarrão — ela respondeu.

— Oi? Nunca vi falar nesse santo. É novo? Foi canonizado pelo Papa Francisco?

— Não, amiga. Santo macarrão foi a macarronada a alho e óleo com camarão, tomate seco, manjericão e azeitonas pretas que eu fiz pra ele. O homem gamou. Estou noiva. E mostrou um anel de noivado cravejado de diamantes, uma bolsa Prada e uma sandália dourada de salto quinze, meus sonhos de consumo. Que inveja.

Logo eu, que quando tentei há uns dez anos entrar na onda de agradar um homem fazendo uma feijoada… que virou macarrão? Explico: me meti a cozinhar e tentei fazer uma feijoada, mas a gororoba ficou tão ruim e tão salgada que joguei tudo no lixo, com panela e tudo, e fiz um macarrão instantâneo. Meu candidato a marido viajou pro Japão uma semana depois e nunca mais voltou. Deve ser por isso que ainda estou encalhada, deve ser culpa do Miojo e da minha falta de dotes culinários. Por enquanto, só sei escrever e beijar muito bem, mas ainda não encontrei meu príncipe encantado. E como voltei a acreditar em conto da carochinha… Está decidido: quando eu terminar de escrever meu próximo livro, depois que ele for publicado, eu fizer uma turnê nacional e internacional com sessões de autógrafos e vender uns dois milhões de exemplares… vou me matricular em um curso de alta culinária. Vai que cola!

Os homens ricos, bonitos, e bons de cama e de garfo que me aguardem.

Madalena Costa

Escritora palestrante e editora da revista Mulher Ativa. Iniciou a carreira como empresária no segmento de beleza ainda muito jovem, mas é na literatura, sua grande paixão, que expressa sentimentos que tocam sua alma profundamente. Publicou seu primeiro livro Contos & Batom em 2008, mais tarde adaptado para teatro no festival Internacional de Teatro de Curitiba em 2011, na categoria Novas Linguagens. No mesmo ano lançou a coletânea No divã com as esteticistas Vol. 1, que reuniu 70 contos, crônicas e depoimentos sobre a vida e carreira das mais renomadas esteticistas de vários estados do Brasil. Pela editora KBR, atuou como colunista, publicou o romance Passional e coordenou a coletânea No divã com as esteticistas Vol. 2 Seu grande desafio como editora da revista Mulher Ativa é partilhar conhecimentos e informações relevantes com uma linguagem moderna, arrojada e vanguardista totalmente voltada para o público feminino.

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