Nem tudo que reluz é ouro

Nessa casa de mãe Joana chamada internet e, principalmente, na sala de estar virtual mais visitada do mundo, o Facebook, publica-se posts sobre tudo, todos e mais um pouco. Portanto, todos precisamos exercer o bom senso e discernimento para não cair na tentação de julgar alguém apenas por uma imagem ou uma frase enviesada, um curtir despretensioso em uma foto ou mesmo um comentário que talvez tenhamos interpretado de forma equivocada.

Especialistas em comportamento humano afirmam que muito do que é publicado nas redes sociais é apenas projeção, anseios, sonhos não realizados, e que as famosas hashtags como #prontofalei são uma forma de desabafo moderno, que talvez simbolizem nossa falta de coragem de expressar nossas dores de forma mais direta e pessoal, de demonstrar descontentamento com alguém que nos magoou, nos constrangeu e nos fez sofrer. Em bom português e como dizia minha avó: a gente perdeu a coragem de falar algumas verdades para os outros na lata, por isso lemos tantos desabafos online e tanta exposição das nossas chagas e das chagas alheias.

Há alguns dias, um amigo virtual que aprecia meus textos fez um comentário carinhoso sobre uma das minhas publicações no Facebook, e agradeci no mesmo tom. Dois depois, quando acessei minha página, havia duas mensagens inbox de uma mulher que se intitulava a “esposa” do moço, e pedia esclarecimentos sobre o teor dos comentários. Inclusive, queria porque queria meu número no WhatsApp para falar comigo e esclarecer detalhes do meu intenso colóquio com seu marido.

A mensagem foi enviada precisamente às duas da manhã de um sábado frio e chuvoso, e pedia um retorno urgente, urgentíssimo. Mas quem disse que acesso a internet nesse horário? Quem me conhece sabe que a esta hora estou dormindo pesado. Logo, a mensagem urgente ficou sem resposta.

Três dias após o incidente virtual, digno de matéria de capa no New York Times, recebi outra mensagem da mulher com um xingamento, apenas por eu não ter respondido a mensagem anterior instantaneamente, por ela não estar conseguindo pregar o olho desde então e pelo fato de estar muito enciumada com a pretensa intimidade entre o “esposo” dela e eu. Durma-se com um barulho desses.

Retornei a mensagem da moça nervosa garantindo que não tinha quaisquer intimidades com seu esposo, que nosso contato se dava apenas por meios virtuais, mesmo assim sem muita frequência, e que por eu ser escritora, e de vez em quando interagir com alguns homens na rede social, não significa que tenha interesse pessoal neste ou naquele “esposo alheio”. Expliquei inclusive que tenho um parceiro de décadas, estou muito feliz com ele e não tenho interesse em homem algum além dele.

Enviada a resposta, a moça retornou com um pedido de desculpas, me confidenciando que estava passando por uma fase dificílima no relacionamento, que o tal esposo dela era mulherengo, que a havia traído inúmeras vezes, inclusive virtualmente, com uma dezena de outras mulheres, e que por isso ela patrulhava suas publicações para não correr o risco de mais uma traição.

Depois desse episódio, fiquei me perguntando se não seria a hora de refletir sobre nossas angústias e dores pessoais mais seriamente, de forma mais consciente, de encarar nossas frustrações e aceitar de vez nossa mediocridade, nossa insegurança e nossa falta de controle emocional em alguns assuntos, principalmente os relacionados a relacionamentos mal resolvidos, de parar de julgar o que lemos nas redes e de interpretar tais palavras como verdades absolutas.

E antes de tudo… fiquei pensando que seria de bom tom indagar, esclarecer alguns detalhes que nos incomodam cara a cara. Isto, se tivermos coragem e pudermos contar com a honestidade e transparência do objeto do nosso desconforto, que, nesse caso em especial, pode ser nosso amor, nosso amigo ou até nosso desafeto.
Nem sempre o que sai nas páginas sociais, seja um comentário inocente ou provocador, pode ser considerado uma prova cabal de culpa ou desonestidade das pessoas envolvidas. O que é publicado de forma escancarada e pública pode ser até uma tentava de sinalizar algo… mas creio que somente através de uma boa conversa as coisas podem ser esclarecidas de fato. Após o que, nossas atitudes e compreensão do outro e de nós mesmos tomarão outro rumo, e poderemos viver em paz, sem tantas neuroses e tantos ciúmes impertinentes.

Finalmente, uma pequena observação que talvez possa servir de alerta para as mulheres ciumentas demais: é através das mensagens privadas no Facebook e do WhatsApp que as verdadeiras cantadas e traições acontecem de fato. #prontofalei, ops!

#prontopubliquei

Madalena Costa

Escritora palestrante e editora da revista Mulher Ativa. Iniciou a carreira como empresária no segmento de beleza ainda muito jovem, mas é na literatura, sua grande paixão, que expressa sentimentos que tocam sua alma profundamente. Publicou seu primeiro livro Contos & Batom em 2008, mais tarde adaptado para teatro no festival Internacional de Teatro de Curitiba em 2011, na categoria Novas Linguagens. No mesmo ano lançou a coletânea No divã com as esteticistas Vol. 1, que reuniu 70 contos, crônicas e depoimentos sobre a vida e carreira das mais renomadas esteticistas de vários estados do Brasil. Pela editora KBR, atuou como colunista, publicou o romance Passional e coordenou a coletânea No divã com as esteticistas Vol. 2 Seu grande desafio como editora da revista Mulher Ativa é partilhar conhecimentos e informações relevantes com uma linguagem moderna, arrojada e vanguardista totalmente voltada para o público feminino.

1 comentário em “Nem tudo que reluz é ouro

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