Promessas da Internet

Digo e repito que estou velhinha, mas não é pra fazer doce, não. É, justamente, pra me conscientizar da idade, conforme a certidão de nascimento, e não marcar grandes bobeiras, me poupar de extravagâncias cujas consequências a garota (que, realmente, sou) não segura mais.

Digo, repito e, volta e meia, não lembro.

O problema surge quando a promessa é para emagrecer (magicamente), melhorar o desempenho físico, azeitar o funcionamento do organismo ou dar um upgrade nas funções cerebrais.

Imediatamente, me concebo com o vigor e a resistência de décadas atrás. E embarco nas promessas miraculosas de complementos alimentares que aparecem na internet, cantando como sereias sedutoras.

Ah, os benefícios da Cúrcuma! E lá vai a garota Bibi, saltitante, encomendar as benditas cápsulas. Em uma semana de “tratamento”, a velhinha Bibi já está preferindo a morte a todos os benefícios anunciados.

Declaro um “nunca mais!”… E digo e repito que estou idosa, que algum juízo se faz necessário.

Enquanto me contento com ousadas aventuras imaginárias (nadando 400 metros na piscina, correndo 5 quilômetros na trilha de barro, pedalando na estrada íngreme para Lumiar) o tempo passa. Cheia de gás, a garota se espalha… E, de repente, vem a notícia de que óleo de coco é o suprassumo como alimento natural, capaz de corrigir todos os revertérios comuns ao envelhecimento e — mais! — de nutrir os neurônios de tal maneira que o usuário não há de esquecer jamais nomes, o próprio número de telefone, o que estaria fazendo, parado no meio do corredor, porque estava indo não se sabe aonde pra pegar não se sabe mais o quê.

Adorei!

No pote, estava escrito “orgânico”. Isso aumentou a minha confiança no produto e a esperança de que as minhas sinapses dariam saltos quânticos, me proporcionando intuições incríveis, ideias inovadoras e, enfim, textos sem um errinho sequer de português.

Maravilha!

Assim, num mero estalar de dedos, a velhota se esqueceu do diagnóstico de síndrome do intestino irritável, tomou a colherada de óleo de coco… E a garota — lamento informar — está purgando os pecados há dias.

Nunca mais!

Bibi Fiuza

No começo, era Maria Beatriz, criatura da safra de setembro de 1948. Dez anos depois, mais ou menos, foi a Kuri que se encantou pelas palavras, desandou a escrever poesia até se tornar, por volta dos 20 anos, a "menina-poeta" de Vinícius de Moraes. Sua história está em seis livros de poemas, mais um em prosa, além das participações em antologias e, recentemente, numa coletânea de contos infanto-juvenis. Em 2011, exatamente, surgiu Bibi Fiúza. Veio para se espalhar no Facebook... Ora, que coisa, não é?! Sabe-se lá por quê -- quem dirá? --, foi ganhando a primazia e, de repente, assumiu bons-dias, boas-tardes, boas-tardes. Maria Beatriz não desapareceu: é a cidadã, com certidão de nascimento, documentos numerados, responsabilidades; estudiosa, formou-se em Psicologia, na falecida Universidade Gama Filho (1973), e em Comunicação, na PUC-RJ (1979). Kuri permanece: é quem existe como eixo identitário, a entidade pensante, falante e brincante. E Bibi... Ah, a Bibi Fiúza! Diz-se matusquela, garante que é má e não presta, presume-se intelectual à moda antiga... Velhinha, lembra, esquece, mistura saberes da vida inteira na cabeça labiríntica. Talvez, agora, não seja mais do que uma Chutóloga dada a Achismos. Eis a sua, a nossa Bibi Fiúza. Muito prazer, gente!

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